O clã mafioso Corleonesi: Uma facção que agregou muitos nomes de peso no mundo da Máfia

Os Corleonesi são uma facção da Máfia Siciliana que mantinha o domínio da Cosa Nostra nos anos 1980 e 1990. O nome informal Corleonesi foi alcunhado pela mídia e pelo governo, uma vez que os líderes mais importantes desse clã vieram da cidade de Corleone, do primeiramente conhecido como Luciano Leggio e posteriormente com Totò Riina, Bernardo Provenzano e Leoluca Bagarella, cunhado de Riina.

A coalizão dos Corleonesi conseguiu assumir o comando da Comissão da Máfia Siciliana e impôs uma quase-ditadura sobre a Cosa Nostra, travando guerra contra facções rivais (o que também ficou conhecido como Segunda Guerra da Máfia) de 1978 a 1983. As facções mais estabelecidas da Máfia na cidade de Palermo subestimavam os mafiosos de Corleone e, com frequência, se referiam ao Corleonesi como i viddani ― “os camponeses”.

Afiliações e membros além dos de Corleone

Os afiliados Corleonesi não se restringiam a mafiosos advindos de Corleone. Os chefes da Máfia de Corleone procederam com a iniciação de “homens honrosos” não necessariamente de Corleone, cujo status era mantido em sigilo para com os outros membros da Cosa de Corleone e para com outras Famílias Mafiosas. Membros de outras Famílias Mafiosas que se juntaram a Riina e Provenzano também eram chamados de “Corleonesi”, formando uma coalizão que dominou a máfia nos anos 80 e 90, que pode ser considerada como uma espécie de Cosa Nostra paralela. (Giovanni Brusca, da Família da Máfia San Giuseppe Jato, foi considerado parte da facção Corleonesi, por exemplo. Veja também Cosa Nostra após a morte de Bernardo Provenzano).

Antonino Calderone, o pentito ― isto é: um vira-casaca da máfia, traíra; a palavra pentito vem do italiano, significando “aquele que teve remorso” ― forneceu relatos de primeira mão acerca dos líderes Corleonesi: Luciano Leggio, Totò Riina e Bernardo Provenzano. Sobre Leggio, Calderone disse:

“Ele gostava de matar. Tinha uma maneira de olhar para as pessoas que podia assustar qualquer um, até nós, mafiosos. Se qualquer coisa mínima que fosse o chateasse, uma luz estranha aparecia em seus olhos e criava silêncio ao redor dele. Quando você estava na companhia dele, você tinha que ter cuidado com a forma como falava. O tom de voz errado, uma palavra mal interpretada e, de repente, esse silêncio. Tudo ficaria silencioso, desconfortável e podia-se sentir o cheiro da morte no ar”.

“Os chefes de Corleone não eram lá educados; eram astutos e diabólicos”, disse Calderone sobre Riina e Provenzano. “Eles eram inteligentes e ferozes, uma combinação rara na Cosa Nostra”. Calderone descreveu Totò Riina como “incrivelmente ignorante, mas ele tinha intuição e inteligência e era difícil de se entender, e bastante difícil de se prever”. Riina era de fala mansa, altamente persuasivo e, com frequência, muito sentimental. Ele seguiu os simples códigos de conduta do mundo brutal e antigo da periferia siciliana, onde a força é a única lei e não há contradição entre gentileza pessoal do indivíduo e ferocidade extrema. “Sua filosofia era que se o dedo de alguém doesse, seria melhor cortar todo o braço, só para se certificar”, disse Calderone.

Outro pentito, Leonardo Messina, descreveu como os Corleonesi organizaram sua ascensão ao poder:

“Eles tomaram o poder lentamente, paulatinamente matando todo mundo… Nós éramos meio que encantados com eles pois pensávamos que se livrar dos antigos chefes faria com que nos tornássemos os novos chefes. Algumas pessoas mataram seus próprios irmãos de sangue, outros, primos seus, e assim por diante, porque eles pensaram que iriam tomar seus lugares. Em vez disso, lentamente [os Corleonesi que os usaram] ganharam o controle de todo o sistema… Primeiro eles usaram-nos para se livrar dos antigos chefes, então, se livraram de todos aqueles que levantaram a cabeça contra, como Giuseppe Greco vulgo ‘the Shoe’ (‘o Sapato’, em tradução livre), Mario Prestifilippo e Vincenzo Puccio. Tudo o que restou foram homens sem caráter, que são suas marionetes”.

Divisões e conflitos internos

Na década de 1990, surgiu uma divisão entre os Corleonesi, após a prisão de Totò Riina, em 15 de janeiro de 1993. Passados os meses seguidos à prisão de Riina, houve uma série de bombardeios por parte dos Corleonesi contra vários pontos turísticos do continente italiano ― a Via dei Georgofili, em Florença; a Via Palestro, em Milão; a Piazza San Giovanni, em Laterano; e a Via San Teodoro, em Roma. Tais bombardeios deixaram 10 pessoas mortas e 93 feridas, bem como desferiram danos gravíssimos aos patrimônios locais.

Provenzano propôs uma nova estratégia menos violenta para a Máfia ao invés da campanha de bombardeios terroristas contra o Estado em 1993, a fim de pará-los em sua repressão contra a Máfia (que se deu após os assassinatos dos promotores antimáfia Giovanni Falcone e Paolo Borsellino). As novas diretrizes de Provenzano foram paciência, compartimentação, coexistência com as instituições do Estado e infiltração sistemática nas finanças públicas. Provenzano restabeleceu as antigas regras da Máfia que Riina tinha abolido sob seus próprios olhos, quando, junto com Riina e Leoluca Bagarella, governava a coalizão dos Corleonesi.

Giovanni Brusca ― um dos sicários de Riina; que detonou pessoalmente a bomba que matou Falcone e se tornou uma testemunha estatal (um pentito) após sua prisão, em 1996 ― ofereceu uma versão polêmica da captura de Totò Riina: um acordo secreto entre os oficiais da força militar-policial italiana Carabinieri, agentes secretos e chefes de La Cosa Nostra enfastiados ​​com a ditadura da facção de Riina dos Corleonesi. De acordo com Brusca, Provenzano “vendeu” ou “entregou” Riina em troca do valioso arquivo de materiais comprometedores que Riina mantinha em seu apartamento, na Via Bernini 52, Palermo.

Em 2002, a fenda dentro da coalizão Corleonesi tornou-se clara. De um lado, havia os intransigentes na prisão ― liderados por Totò Riina e Leoluca Bagarella ― e, de outro, os mais moderados, conhecidos como “Os Palermitani”, liderados por Bernardo Provenzano, Antonino Giuffrè, Salvatore Lo Piccolo e Matteo Messina Denaro. Os chefes encarcerados queriam que se fizesse alguma coisa sobre as duras condições de prisão (em particular, o relaxamento e descaso do regime prisional 41-bis[1]) e acreditava-se que estariam orquestrando um retorno à violência enquanto cumpriam várias sentenças de prisão perpétua. Durante uma audiência jurídica em julho de 2002, Leoluca Bagarella sugeriu que políticos que não haviam se identificado haviam falhado em manter acordos com a Máfia sobre as condições de prisão. “Estamos cansados ​​de ser explorados, humilhados, assediados e usados ​​como mercadorias por facções políticas”, afirmou.

Antonino Giuffrè ― um confidente próximo de Provenzano, o qual virou pentito pouco depois de sua captura, em abril de 2002 ― alega que, em 1993, La Cosa Nostra teve contato direto com representantes do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, enquanto ele planejava o nascimento do partido político de centro-direita Forza Italia ou, em português, “Avante, Itália!”. O acordo que ele disse ter sido feito seria uma revogação do regime prisional 41-bis, entre outras leis antimáfia, em troca da entrega de ganhos eleitorais na Sicília. As declarações de Giuffrè não foram confirmadas.

De acordo com relatos da imprensa, quando Provenzano foi transferido para a prisão de segurança avançada em Terni, após sua prisão em abril de 2006, o filho de Totò Riina (Giovanni Riina), condenado à prisão perpétua por três assassinatos, deu um grito, dizendo que Provenzano era um “sbirro” ― um expressão popular e pejorativa italiana de se chamar um policial ― quando Provenzano entrou num dos blocos do presídio, insinuando que Provenzano cooperou com a polícia (talvez referente à prisão de seu pai).

Eis a história duma coalizão que se despedaçou; não sem antes deixar mortos, traídos, feridos e perdidos por aí. Mas a polícia sempre faz o seu trabalho… O.K., os políticos também, os bandidos também. Percebe como é confuso até para tipografar?! Mas muitos desses mafiosos estão tendo a colheita que merecem; não devemos ser a favor de justiça com as próprias mãos, mas a lei 41-bis está aí para mostrar que ainda há severa punição para quem de direito.

[1] Lei italiana 41-bis: A lei prevê a possibilidade do Ministro da Justiça suspender a aplicação das regras normais de tratamento de prisioneiros previstas pela lei em casos excepcionais de revolta ou outras emergências graves para alguns prisioneiros em particular (mesmo em prisão preventiva), presos por conta de crime organizado, terrorismo, subversão e outros crimes. Basicamente, uma “carta branca” para a polícia torturar mafiosos e coibir revoltas e comportamentos inadequados.

Muitos dos nomes envolvidos nessa bagunça você encontra aqui mesmo, no estilogangster.com.br, e fica sabendo que fim tomou a vida de cada um.

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One Response

  1. Aleksandro Blumer
    1 de agosto de 2017

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