Por que os mafiosos são tratados mais como celebridades do que como criminosos desagradáveis?

Muitas vezes os gangsters são vistos como homens que se importam com suas comunidades e que vivem segundo seu código próprio de honra e de conduta impenetrável pelos caprichos da lei.

Premissa

Em 1947, época em que  tinha apenas 16 anos, ela viajou com sua irmã e mãe, para visitar um casal de tios na Florida. Um dia depois da chegada, no entanto, Elaine e a tia embarcaram em um outro avião, sozinhas, desta vez. Naquele momento, estava se encaminhando para Cuba, onde sua família tinha negócios e interesses.

Slott lembra-se bem daquela noite. Depois que elas aterrissaram, saíram de Havanas e foram em uma jornada de carro de muitas horas, por áreas que pareciam cada vez mais remotas. Já estava muito tarde e escuro quando chegaram a uma casa imponente. Alguns hóspedes, assim como alguns familiares (incluindo sua tia), haviam se reunido para um jantar. O anfitrião, que preparou massa para seus convidados, surgiu da cozinha de avental branco. Ele se apresentou para Elaine como Charlie.

Por todo o jantar, Charlie foi encantador. Ele mesmo trouxe e serviu a comida. E depois dos aperitivos, veio a massa, e Elaine se surpreendeu encarando o prato que pensou estar lá para ser compartilhado por todos à mesa. “Eu nunca conseguiria comer tudo isso”, ela declarou. Charlie riu e sugeriu um desafio: ele daria a ela 2 dólares se comesse tudo. Outro candidato subiu a aposta: mais dois dólares para a menina. Elaine não tinha nem um trocadinho e queria comprar suvenires para sua irmã, que tinha ficado na Flórida. Então ela comeu o prato todo. Todo mundo torceu. E ela recebeu seu merecido dinheiro com mérito. No caminho de casa, comprou os suvenires sem pensar duas vezes.

Muitas semanas depois, uma foto no jornal chamou sua atenção. Tratava-se se um homem muito familiar. Sobre a foto uma manchete falava de Charles “Lucky” Luciano. Ele tinha sido capturado em Cuba e estava sendo deportado para a Itália. “Mãe, por que você não me disse quem ele é”, reclamou Elaine. “Você não precisa saber de tudo”, sua mãe replicou. Ela não devia ter ficado tão surpresa. O tio que visitou na Flórida era Meyer Lansky. Naquela noite, ele tinha enviado sua esposa e sobrinha para conhecerem seu melhor amigo.

Algumas semanas atrás, Slott, uma velhinha delicada de 80 anos, se lembrou com melancolia daqueles dias enquando come um bife no jantar de estreia de Making of the Mob, docudrama sobre os primeiros anos do crime organizado, quando Lucky, Meyer e Bemjamin “Bugsy” Siegel dominavam os EUA.

Ela se lembra de Charlie como um cavalheiro e de seu tio como uma pessoa carismática e carinhosa que cuidava profundamente de sua família. O neto de Meyer Lansky, Meyer Lansky II, um antigo operador do cassino de 58 anos de idade que estava sentado na mesma mesa, disse que ele se sentia do mesmo jeito. Ele se lembra de andar com seu avô na praia em Miami e de ouvir seus conselhos. Seu avô era um homem calmo e gentil – e, Lansky II se apressa em ressaltar que nunca sujou suas mãos com nada.

Não é de se espantar que os membros daquela família descrevem de forma idílica seus ancestrais mafiosos. Todo mafioso era também pai, irmão, tio ou avô, e – ao menos teoricamente – sua vilania não se aplicava a esses papéis.

Veja também: Jantar com Lucky Luciano

Por que tantas outras pessoas se sentem da mesma forma

A principal pergunta é por que tantas outras pessoas se sentem da mesma forma. Nós não glamourizamos todos os crimes violentos; ninguém admira ou considera os serial killeres Sam ou Charles Manson. (É dificil imaginar seus descendentes se reunindo para um jantar comemorativo num restaurante.) Então, por que Al Capone, Lansky, Arnold Rorthstain, Luciano, e gente deste tipo ainda são vistos como figuras místicas ou mesmo como um tipo de herói, não somente por suas famílias, mas também pelo público em geral? Por que os membros da máfia italiana são tratados mais como celebridades do que como criminosos desagradáveis?

Parte da resposta é histórica. De acordo com James Finckenauer, um emérito professor na universidade de Rutgers e autor de “A Máfia e o crime organizado: Guia para iniciantes,” a glamourização da máfia começou com a sua proibição. Então veio a Lei Seca, que proibiu o álcool. “Um dos efeitos colaterais foi a consolidação do crime organizado e a criação uma organização internacional real, diferente do que havia sido, em essência, os grupos criminosos pequenos,” Finckenauer disse. Pela proibição ter sido amplamente impopular, o homem que a enfrentava era considerado herói, e não um criminoso. “Esse foi o início da imagem desses homens como sendo pessoas que conseguem interferir nas leis e no governo,” disse o professor.

Mesmo quando a proibição foi revista, e os serviços dos traficantes de bebidas não eram mais necessários, a imagem positiva original foi mantida. Livros como “O poderoso chefão” de Mario Puzo passaram a ideia da máfia como sendo homens que se importavam com a felicidade de suas comunidades e que viviam por seu próprio código de honra e conduta.

Teoria da conspiração alienígena do crime organizado

As identidades imigrantes dos mafiosos originais também fizeram deles pessoas mais fáceis de admirar. Com as exceções significantes de Meyer Lansky e Arnold Rothstein, os mafiosos originais do alto escalão eram, em sua maioria, italianos. E, mesmo lá pelos anos vinte, italianos e ítalo-americanos foram muitas vezes considerados “o outro” por boa parte do país. Na verdade, muitas pessoas se conectavam com o que os criminologistas chamam de teoria da conspiração alienígena do crime organizado – a ideia, como Finckenauer descreve, de que “italianos do Sul vieram até nós com más intenções e criaram uma empresa criminosa em nossa costa.” (Hoje, Donald Trump sustenta uma teoria similar sobre os imigrantes que veem do sul da fronteira.)

Aquela visão dos italianos como “o outro”, combinada com a ideia de que as regras rígidas dos mafiosos excluíam o envolvimento com quem não fizesse parte do seu meio, tornava os gangsters menos ameaçadores. “De um modo geral, as pessoas têm a impressão de que se eles não têm qualquer contato com as coisas que a máfia fazia – sem drogas, sem empréstimos e sem jogos ilegais, os admiradores da máfia não tinham nada a temer”, disse Finckenauer. Porque sua violência parecia dirigida a suas próprias comunidades, e a ninguém mais, tornou-se fácil romantizar a história.

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Psicólogia social

Psicólogos sociais já há muito tempo distinguiram os criminosos “agrupados” e os “não-agrupados”. Os “não-agrupados” se apresentam em diferentes formas. Há alguns com quem não sentimos absolutamente nenhuma afinidade; muitas vezes, nós nos separamos deles menosprezando-os. Mas outros grupos são suficientemente parecidos com os “agrupados”, embora a sua identidade permaneça separada da nossa. E é a esta categoria a que a máfia pertence.

Veja Também: Máfia vs Gang – 4 diferenças básicas

As pessoas que se consideram “inteiramente americanas” podem ser fascinadas pelos mafiosos italianos e até admirá-los, sem se preocuparem com o fato de suas vidas não se assemelharem à vida desses criminosos. Não é coincidência que as outras figuras da máfia glamourizadas nos EUA são os irlandeses: a partir de “Os Infiltrados”, filme que apresentou os irlandeses com semelhanças suficientes para gerar a simpatia, mas diferentes o suficiente para uma falsa sensação de segurança. Por razões de língua, cultura e raça, os membros da máfia chinesa e russa se provaram mais difíceis de serem romantizados.

O fenômeno do distanciamento mental

Em última análise, o mito da máfia depende da distância psicológica, conceito cunhado pelo psicólogo da Universidade de Nova Iorque, Yaacov Trope, para descrever o fenômeno do distanciamento mental que acontece quando nos separamos de eventos, pessoas, emoções ou conceitos. Em alguns casos, essa distância vem naturalmente. Como um evento doloroso nos leva para o passado, nossa percepção se suaviza; quando nós nos removemos fisicamente da situação emocionalmente complicada, nossas emoções se acalmam. Em outros casos, nós precisamos deliberadamente cultivar uma distância – para “ganhar perspectiva.” Trope conecta tudo isso ao velho cliché de sentir falta da floresta por causa das árvores: você pode andar por entre as árvores para sempre ou, através de treinamento ou intervenção externa, percebe que você precisa dar um passo para trás para ter uma vista completa.

Uma vez atingida, a distância psicológica nos permite romantizar e sentir nostalgia de quase qualquer coisa. A distância promove um filtro, eliminando alguns detalhes e criando empatia com outros. Nós falamos dos belos e velhos dias, mas raramente dos velhos dias ruins. Distância psicológica é, entre outras coisas, um mecanismo de aceitação: protege contra depressão e seus parentes próximos, a ruminação mental, a qual nos impulsiona a ficar por tempo demais remoendo detalhes dolorosos do passado em vez de seguir em frente. Quando, em vez disso, suavizamos os limites do passado, lembrando do evento como se tivesse sido melhor do que foi, nós acabamos esperando conseguir viver uma felicidade igual no futuro.

Mas não demanda tempo. Nas condições certas, pode florescer em um momento. A distância psicológica fornecida pelo “outro” emula a distância fornecida pelo tempo. Esse não é um fenômeno exclusivo da máfia. É fácil glamourizar um conflito quando não há um projeto de se engajar nele. É fácil idealizar qualquer pessoa cujo estilo de vida parece ariscado e impulsivo sem se colocar, pessoalmente, em risco algum – espiões e agentes secretos, rebeldes sem causa, os beatniks do “Na estrada”, de Jack Kerouac. Desde que não haja algo fácil de recordar, um lembrete factual que coloque nossos pés no chão bem longe das nuvens do romancismo, nós podemos idealizar à vontade.

A vida dos serial killeres oferece aqueles lembretes concretos: eles se esquivam por bairros como o nosso, ameaçando pessoas que poderiam ser nós mesmos. A máfia é mais abstrata: trata-se de uma “organização” vaga e obscura cuja relação ilícita, na verdade, não se colide conosco. Abstração se presta a criar distância psicológica; a especificidade a destrói.

Conclusão

Nós concedemos dignidade aos mafiosos porque nós gostamos de contemplar os princípios gerais segundo os quais eles deviam ter vivido: omertà, levantando-se contra a autoridade injusta, protegendo a si mesmo. Esses princípios são o que você vê e ouve quando assiste aos anos de ouro de Lansky e Luciano reproduzidos em “The Making of the Mob”, ou quando acompanha a tomada de Boston por Whitey Bulger em “Aliança do crime”. Do mesmo modo, quando Meyer II e Elaine Slott falam sobre o passado, ouve-se ecos de grandiosidade – de ideais sublimes, de grandes ambições, de princípios importantes que as palavras, frias, nem sempre denotam.

Aquele jantar em Cuba é recordado com uma ilustração de amizade e família: Lucky era apenas um homem do bem, arrancado de sua comunidade que amava para que os EUA pudessem fazer um pronunciamento político. Por serem relacionados a ele, os familiares de Lucky Luciano o veem como um homem de princípios, que merece nossa admiração em vez de um criminoso que merece nosso desdém. A distância psicológica nos permite vê-lo deste modo, também. E assim nos tornamos membros da família.

Fonte, em tradução livre  – http://www.newyorker.com/

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