Mentalidade mafiosa: um modo de agir e pensar

Ser mafioso não significa somente pertencer a uma sociedade criminosa: é, antes de tudo, um modo de ser, de sentir, de agir na sociedade e no relacionamento com seus elementos.” 

Por muitos séculos, o poder estatal na Sicília foi personificado por governantes estrangeiros, então de uma aristocracia rural parasitária e exploradora com a qual era impossível uma identificação pelo povo, e depois novamente a partir de uma burguesia agrária que “replicaram os vícios da aristocracia”. 

A experiência antropológica e cultural dos sicilianos, derivada desses eventos históricos e transmitida de geração em geração, apresenta-se como depressiva de desapropriação e desesperança, de espera passiva e de desamparo, de incerteza, ameaça, insegurança e resignação. 

Pensamento 

O grande ponto de força do pensamento mafioso, como é amplamente conhecido, é dado pela incrível coesão entre os membros internos da organização, de modo a tornar o seu “negócio” realmente “Cosa Nostra. 

Esta coesão, foi construída seguindo o milenário exemplo ocidental da aristocracia, fazendo corresponder à família original com a família da organização. Isso cria uma coesão “fundamentalista”, baseada em rígidos fundamentos afetivos da individualidade. 

Na psicologia fundamentalista, onde não há coincidência entre a família biológica e a família da nova filiação (das organizações), este último tornou-se mais importante que a família biológica. Para a máfia pode-se matar um cônjuge que tem “sgarrato”, ou seja tem errado.

A Família mafiosa responde principalmente à necessidade extrema do tema da identidade e filiação. O mafioso antes de se tornar o tal, era “nuddu ammiscatu cu nenti, (ninguém misturado a nada) e, depois, através de sua identificação totalizante com os valores da Família mafiosa, tornando-se mais importante e vital que a Família original, atinge uma própria dimensão de identidade, acompanhada por uma forte sensação de proteção, tanto cobiçada para se mover e orientar-se no mundo e para construir seu próprio projeto de vida. 

De acordo com um ditado, La famigghia si ricanusci a la chiuruta di la porta (A família se reconhece ao fechar a porta), ou seja, que na família estão apenas aqueles em quem você confia. 

Desse modo é baseado o fenômeno mafioso, definido como um desequilíbrio na percepção do ambiente, um distúrbio na visão do triângulo “indivíduo-famíliasociedade“, ajudada pela falta de uma forte autoridade pública para limitar o crime. 

No ninho familiar, cada siciliano reconhece uma verdade implícita, porque representa um elemento unificador não só sanguíneo, como também enraizado na exigência de um elemento seguro, de qualquer maneira, com a exclusão das dificuldades e dos problemas no âmbito interno da sociedade. 

O pensamento mafioso está estrita e profundamente ligado ao pensamento coletivo siciliano. Não podemos falar de mafiosos sem se referir à Máfia Siciliana. Mas as seguintes declarações: “Tutti i mafiosi sono siciliani” (Todos os mafiosos são sicilianos) e “Tutti i siciliani sono mafiosi” (Todos os sicilianos são mafiosos) contêm uma radical diferença, sintoma de estereótipo comum. 

Comportamento

Ser mafioso não significa somente pertencer a uma sociedade criminosa: é, antes de tudo, um modo de ser, de sentir, de agir na sociedade e no relacionamento com seus elementos. É claro que nem todos os sicilianos são criminosos, nem é automático que devam ser; se trata de uma predisposição na psique de cada habitante da Trinácria. 

Não é difícil comparar nos sicilianos comportamentos definidos como mafiosos, ligadossobretudo à omertà (honra). Não se trata de ilegalidade evidente e são encontrados em modo particular na contínua guerra contra o Estado, com pequenos atos cotidianos ligados a conservação dos indivíduos e do núcleo familiar à custa das normas sociais. 

O ato banal de não confiar nos policias, de não ser espião, de não falar dos negócios de outros, até ignorar as normas municipais de estacionamento e assim por diante, apresenta uma base comportamental. 

Em primeiro lugar, encontramos a Família com seus membros e, em seguida, todo o resto. Em outras palavras, a mentalidade mafiosa é um dos modos de pensar entrelaçados no pensamento e no sentimento coletivo siciliano,  levados às extremas consequências, provocando um comportamento mafioso verdadeiro e bem próprio. 

De um ponto de vista linguístico, Giuseppe Potrè, antropólogo e estudioso da tradição siciliana, observou como na história cultural da Trinácria o termo “Máfia” não guardava, em si, os elementos negativos que nós universalmente a atribuímos.  

Na verdade, interpreta-se o termo como reunião de atitudes morais bastante positivas, tais como a honra, a amizade, a fidelidade, o respeito desejáveis tanto dos sicilianos quanto das outras culturas, a ética que não por acaso vem transmitida em cada Família da Sicília. 

Mafioso também é quem não requer ajuda da parte das instituições no momento em que se é feita uma injustiça ou tem que resolver um problema e que é capaz de fazer justiça por si. 

Esta sutileza no dialeto torna complexo explicar a um não siciliano as nuances de significados e padrões de pensamento que compõem a imagem do “mafioso”, provocando o paradoxo entre um “invejável servo cavaleiro” e um “brutal assassino”. 

Hoje, as tendências morais deram lugar à imagem negativa, e a primeira ainda permanece na psique coletiva dos sicilianos. 

Cada mafioso precisa de uma Família

O mafioso tem necessidade de uma Família, do clã, que assegura o escudo protetor contra todos e tudo, desde que se submeta às regras para não trair os ideais, de ser fiel; pena máxima, além de morte, é a desonra, que em algumas áreas do sul da Itália continua a ser válida por mais de uma geração. 

É interessante observar como uma símile estrutura de evolução apoia as bases sobre um equívoco dos processos de desenvolvimento infantil: a Família incorpora em si ambos os símbolos – paterno e materno –, quando com a sua autoridade é a capaz tanto de punir (pai) quanto de proteger (mãe) o seu adepto, que não casualmente é chamado de “picciottu“, o equivalente siciliano a “garoto“. 

Mesmo do ponto de vista de gênero, o mafioso não conhece as atribuições precisas: a feminina é vista como frágil, embora guardiã da honra da Família e “obediente ao seu mestre”; o macho é forte, resistente e inflexível. 

A esfera emotiva e afetiva é totalmente inserida no sistema da Família: o mafioso vive e sente emoções, assim como na Família foi ensinado, e tons de diferentes sentimentos deles, não entram nem mesmo na estrutura cognitiva. O conteúdo emocional só faz sentido na Família. 

O mais difícil para um colaborador da justiça é, de fato, construir um vínculo de confiança com o Estado e suas instituições antes de revelar o seu conhecimento. 

Conclusão

À luz de tudo isso, continuar a ver a Máfia como qualquer organização criminosa é um eufemismo, bem como profundamente errada: as estruturas sociológicas a tornam um fenômeno único no seu gênero, a estudar e enfrentar sem nunca perder de vista os elementos principais. 

E você? O que pensa sobre o assunto? Comente abaixo, ciao! 

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