Mafia: Códigos e Rituais de afiliação entre mito e realidade

A lenda dos três cavaleiros espanhóis. Sangue que jorra, punhais e beijos: como se entra nas organizações criminais?

O ritual se chama “punciuta”, que consiste em fazer sair algumas gotas de sangue que devem cair sobre um santinho para queimar. Com a promessa de que suas carnes queimarão como as chamas em caso de traição.

É uma das partes finais do juramento para o “batismo mafioso”, que marca a entrada de um novo membro a honrada sociedade. O ritual é de fundamental importância, uma única impressão digital, elementos e terminologias recorrentes no tempo e no espaço.

Referências a Garibaldi

A frase ‘Il Buon Vespero’ abre todas as cúpulas até agora conhecidas; e a referências explicitas a Garibaldi (patriota italiano), Mazzini (político) e La Marmora (general) são até mesmo documentados nas escutas telefônicas da Polícia italiana do Ros em seguida, tornada pública em 18 de novembro de 2014 durante uma grande blitz contra a ‘Ndrangheta no Norte.

“Buon Vespero e santa sera ai santisti! Mesmo nesta santa Noite, no silêncio das trevas e sob a luz das estrelas e do esplendor da lua, formo a santa cadeia! Em nome de Garibaldi, Mazzini e La Marmora, com palavras de humildade, formo a Santa Sociedade!”

Juro, nego tudo.

E ainda – diga comigo: “Juro de negar tudo até o fim da sétima geração… toda a sociedade criminal em mim até hoje reconhecida para proteger a honra de meus sábios irmãos! Em nome de Garibaldi, Mazzini e La Marmora, passo meu voto em nome de…”.

Por fim: “Se antes eu o conhecia como um sábio irmão “feito” e não fidelizado, deste momento o conheço por meu sábio irmão! Sob a luz das estrelas e o esplendor da lua, projeto a santa cadeia! Em nome de Garibaldi, Mazzini e La Marmora, com palavras de humildade, é formada a Santa Sociedade“.

Ritos muitas vezes subestimados.

Enzo Ciconte, professor de História da criminalidade organizada na Universidade de Roma, explica que o ritual de afiliação serve para enobrecer a participação em um grupo criminoso. Os rituais vêm relegados muitas vezes a um aspecto folclórico e por isso subestimados. Representam, no entanto, elementos cruciais segundo o qual devem passar todos os afiliados. Na linguagem mafiosa, determinam quem tem o poder de vida ou morte e não há possibilidades de voltar atrás “.

Osso, Mastrosso e Carcagnosso: Lenda para enobrecer a Máfia

Os códigos utilizados nas afiliações foram analisados por vários autores ao longo dos anos. Fontes confiáveis datam em 1888 a primeira fórmula encontrada e a colocam na região da Calábria, a Nicastro, um dos três municípios que compõem a atual Lamezia Terme, onde todos os anos se efetua o festival de livros sobre a máfia.

Há, porém, uma lenda, aquela que “enobrece” a máfia, que remonta ao início do século XV.

cavaleiros-da-mafia

Osso, Mastrosso e Carcagnosso, os três cavaleiros da lenda que “enobrece” a Máfia.

Três cavaleiros espanhóis Osso, Mastrosso e Carcagnosso, que nos tempos antigos para vingar a honra de sua irmã mataram um homem e foram condenados à prisão na ilha de Favignana, na Sicília. Ali trabalharam por 29 anos, 11 meses e 29 dias nas regras sociais.

No final do período de retenção amadureceram as regras de honra e o código de omertá que compunha o código da “sociedade” marcando o futuro das organizações criminosas da máfia italiana. Osso fundará Cosa Nostra na Sicilia, Mastrosso a ‘Ndrangheta na Calabria e Carcagnosso a Camorra em Napoli.

A Camorra é a origem

E apesar da ilha de Favignana fazer parte do arquipélago de Egadi, na Sicília, a história dos três cavaleiros coloca a Camorra como a origem das máfias.

A Camorra reside na ilha de Favignana em um túmulo grande, secreto e profundo. A máfia deriva da Camorra também do ponto de vista histórica documental, mas com uma data e um lugar diferente. Seria um fenômeno nascido em Nápoles em prisões Bourbon em imitação do comportamento maçônico. Se concretizava em uma espécie de extorsão entre condenados para a gestão da cama ou assentos no interior das células.

Reposição infinito do chefe

Isaia Sales, professor de criminalidade organizada na Universidade Suor Orsola Benincasa de Napoles, o diz claramente: A Camorra é a única organização desorganizada. Esta definição de grupos anarquistas ligados uns aos outros não mudou até hoje e, portanto, também explica o elevado nível de contenda no seu interior. A fragmentação no território, em vez de enfraquecer a estrutura, torna-a ainda mais forte. Quando é aniquilada uma gangue, tem imediatamente uma outra para assumir o lugar. É a estrutura com a mais alta substituição de chefe: um exército de delinquentes com uma troca infinita.

Camorra: 5 Informações Básicas sobre a Máfia Napolitana

O hábito de sangue jorrando é comum a todos

Se a Camorra se caracteriza pela alta contenda dentro dela, pela sua imprevisibilidade e pelo uso de violência de maneira ocasional e frequente, do ponto de vista do ritual da filiação não parece haver grandes diferenças com a Cosa Nostra e a ‘Ndrangheta. Neste caso também existe uma ‘pungitura’ para fazer jorrar o sangue do novo afiliado.

punciuta - ritual afiliação mafia

Abandoná-la nunca

De fato. Os três cavaleiros espanhóis que, sempre de acordo com a mitologia mafiosa, simbolizam Jesus Cristo, São Miguel Arcanjo (patrono também da polícia estadual) e São Pedro em um cavalo branco para proteger a correspondência da sociedade, prometendo que “a Camorra na minha mão é como a hóstia consagrada nas mãos do sacerdote que morrer sim, mas abandoná-la nunca.”

Punhal de Omertá

É a eles que se deve a formalização do ritual, a matriz de todas as variantes posteriores: “Juro sobre este punhal de omertá com a ponta molhada de sangue e na frente da honrada sociedade, de ser fiel aos meus companheiros e de renegar pai, mãe, irmãs e irmãos e de cumprir todos os meus deveres e, se necessário, também com sangue.”

O juramento era selado com um aperto de mão e um beijo a ser dado no chefe da sociedade.

O famoso beijo

O beijo é definitivamente o gesto ritual que os italianos têm bem presente e que mais se identifica com a afiliação na Cosa Nostra; assim como eles compreenderam a importância da “pungitura” como um símbolo de reconhecimento da máfia siciliana.

Jovens analfabetos que sonham em crescer. Fantasia estimulada

Não obstante os fundamentos do ritual de afiliação (a pungitura, o santinho para queimar, o juramento, a disposição de homens de honra em forma de ferradura) comuns a máfia, têm ocorrido ao longo dos anos uma infinidade de pequenas variações.

Enzo Ciconte analisa alguns rituais em seu livro Ritos Criminais. Os códigos de afiliações na ‘Ndrangheta. O simbolismo durante o ritual de afiliação, escreve Ciconte, era feito de propósito para inflamar a imaginação dos jovens analfabetos provenientes das classes sociais mais humildes, que sonhavam em crescer, de serem reconhecidos e respeitados.

Ciconte também retraçou a estrutura dos códigos, do ponto de vista do histórico e documental, pelo menos as últimas décadas do século XIX e confirma a teoria que eram resultados das suas relações em prisões entre maçons e outros detidos.

Filiação no anoitecer

Não se conhece, no entanto, qual seja a origem das variantes das afiliações e se há alguém que a ‘autoriza’. Por exemplo, não se sabe como ou por que um dos rituais ‘Ndranghetista prevê que a afiliação deva ser feita no último sábado do mês, ao anoitecer, se possível entre 17 e 18′.

Mas se as máfias se evoluem cada vez mais, se enriquecem de pessoas com diplomas, se ocupam de finanças e concursos públicos, como é possível que esses rituais arcaicos sobrevivem ainda?

Senso de pertencimento

A resposta é dada, mais uma vez, por Enzo Ciconte: Aquela de Osso, Mastrosso e Carcagnosso é uma história lendária que se tornou verdadeira pela força de se repetir obsessivamente. Os códigos proporcionam uma sensação de pertencimento e uma ideia de comunidade para homens, que para emergir e submergir o próximo, com a violência, tiveram a necessidade de uma ideologia e uma cultura que justificassem as ações.

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