Máfia Chinesa em Foco: A Tríade

A Tríade – nome mais utilizado para designar a máfia chinesa – é uma organização cujas origens precedem em séculos às da própria máfia italiana. 

A Tríade, na verdade, compreende um conjunto de ramificações advindas de uma mega-organização criminosa surgida na China durante o século XVI e que se expandiu para outros países após 1842, quando a China perdeu a Guerra do Ópio para a Inglaterra.

Com sede em Hong Kong, a organização tem bases em Vietnã, Macau, Taiwan, China, Malásia, Singapura, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Reino Unido e mesmo em países como o Brasil e vizinhos latino-americanos. As tríades chinesas são uma das organizações criminosas mais organizadas e poderosas do mundo, que acabam englobando outras organizações criminosas menores para execução de serviços “sujos”. Beneficiam-se com a adesão regular de cerca de 1,5 milhão na China continental e 2,5 milhões de membros no mundo inteiro. As Tríades são quase intocáveis com relação a quaisquer forças policiais.

A Tríade possui uma estrutura hierárquica que lembra em muitos aspectos aquela adotada pela Cosa Nostra. Além das nomenclaturas, cada posição é designada por um número baseado no I Ching – um dos livros chineses mais antigos que perpassou os tempos e chegou até nós, e que é usado como alvo de diversos estudos filosóficos e até como um oráculo.

O número 489 equivale ao “Don” da máfia italiana – o ‘Dragon Head’, ou Cabeça de Dragão. Abaixo dele, três ramificações apontam executivos com nível 438: um comanda as operações, outro é o equivalente a um subchefe, e finalmente o ‘Mestre Incensário’, uma espécie de gerente de recursos humanos da máfia.

mafia chinesa- triade

Os níveis logo abaixo também estão divididos em três facetas, os administradores, os soldados e chefes (ou mestres) que lidam com situações diversas. Os conhecidos “49ers” são como os soldados ou “enforcers” da máfia. A organização ainda admite membros não iniciados, os “Lanternas Azuis”, que operam como os associados, no caso do La Cosa Nostra.

As tríades podem atuar de forma conjunta ou isoladamente e é comum a formação de tríades regionais, especialmente em países do Sudeste Asiático e também em bairros de cultura chinesa no Ocidente.

A Tríade em funcionamento no mundo todo

Dois casos em foco: em Hong-Kong e na Chinatown de San Francisco, EUA

Um membro da Tríade sempre tem a duração de sua vida indeterminada. Na verdade, todo mafioso tem seu “calcanhar de Aquiles”; porém a lógica da máfia é a de legado, família, multiplicação, de modo que é uma organização que tem permeado os séculos, inabalável (E você pode saber mais sobre esses segredos de administração aqui). A seguir, nosso leitor verá alguns casos reais desses Triad members, que não se cansam de encher as manchetes de sangue e ódio.

  • Em Hong Kong

Em 21 de julho de 2016, em Hong Kong, um líder da Tríade foi preso no aeroporto da cidade, logo após ter chegado da Tailândia. Kwok Wing-hung, que foi apreendido, tinha então 58 anos de idade e foi acusado de dois diferentes tipos de conspiração (de causar ferimentos intencionais e a de extorsão), além de intimidação criminosa.

Wing-hung

Kwok Wing-hung, o “Boy de Shangai”.

Segundo investigações da polícia, Wing-hung teria tramado uma conspiração junto a um superintendente idoso e reformado de Hong Kong, para roubarem uma baita soma de dinheiro (cerca de 425 milhões de reais) e teriam conspirado uma fraude para ser executada na cidade de Macau, também na China – uma das regiões administrativas especiais da República Popular da China.

Kwok Wing-hung não era um qualquer; estuda-se que seja um Dragon Head na facção Wo Shing Wo, da Tríade, parte do Grupo Wo (que possui doze facções) – sendo este um dos grupos mais poderosos da Tríade. Pouco antes desse crime, Wing-hung “brilhara” também nas manchetes chinesas, ao ter recebido um soco na cara enquanto usufruía do hotel cinco estrelas mais famoso de Hong Kong, o Peninsula Hotel. Mas depois disso ele conseguiu se safar e desapareceu por sete meses, até ser novamente detido.

  • Em San Francisco, USA

A Chinatown de San Francisco simplesmente anuía à voz de Peter Chong – um dos mais poderosos chefes da Tríade nos Estados Unidos. Porém teve sua sorte mudada quando tentou mesclar todas as gangues criminosas chinesas dos EUA em um único grande grupo mafioso. E então embaçou pro lado dele.

Raymond Chow

Peter “Uncle” Chong

Chong viera para os Estados Unidos em ’82. Queria estabelecer uma empresa de ópera; mas as autoridades alegaram que viera para os States enviado pelo clã da Tríade Wo Hop To, a fim de superintender seus interesses por lá. Parece que as autoridades estavam com a razão, porque não demorou muito e Chong já, logo, começou a liderar o Wo Hop To em San Francisco. O Wo Hop To esteve envolvido em apostas ilegais e extorsões, e governou a cidade com punho de ferro. Seus membros podiam comer de graça em qualquer restaurante da Chinatown de San Francisco! Tal era o pavor que causavam nos cidadãos de bem.

Sob a liderança de Chong, o Wo Hop To começou a se expandir, adicionando pequenas gangues chinesas à sua organização. Uma dessas foi a Hop Sing Tong, administrada por ninguém menos que Raymond Chow. Outras gangues que não queriam cooperar acabavam sendo deduradas por essa “sociedade”, por assim dizer.

Não obstante, uma das gangues que depois se aliou, liderada por Danny Wong, gerou bastante injúrias e (até 2 mortes) ao Wo Hop To. Danny  Wong foi achado um ano e pouco depois de uma trégua com um tiro na “lata”, morto.

Peter Chong e seu subchefe Raymond Chow passaram, então, a gerenciar um grande negócio criminoso que era envolvido com tráfico de drogas, extorsão, apostas e agiotagem. Mas suas operações estavam baseadas na Califórnia, e os dois caras estavam ansiosos para elevar sua organização a nível nacional.

No início da década de 1990, Chong e Chow convidaram Wayne Kwong para se juntar à irmandade de Wo Hop To/Hop Sing Tong. Kwong foi o líder do On Leong Tong, com sede em Boston. Seus subordinados estiveram envolvidos em agiotagem, extorsão e distribuição de drogas na “seção” Chinatown de Boston.

Chong e Chow contaram para Kwong sobre seus planos para um sindicato nacional chamado “Tien Ha Wui” ou “Associação da Terra Inteira”. Esse sindicato seria composto de todas as gangues asiáticas nos Estados Unidos e seria liderado por Peter Chong. Os três caras passaram a achar que eram intocáveis. A combinação de seus poderosos grupos lhes permitiria ganhar muito dinheiro. Mas a polícia já tentava derrubar o grupo. Raymond Chow esteve, então, fortemente envolvido arranjando negociações de drogas para o grupo. Em uma dessas negociações, passou por maus lençóis quando fez um acordo para comprar US$ 100.000,00 (cem mil dólares) de cocaína de um agente secreto da DEA (Policiamento Especial Antidrogas, da sigla em Inglês). E aí… já sabe no que deu, né?

Após um julgamento de oito semanas em 2002, Chong foi considerado culpado por agressão, assassinato por aluguel, extorsão e incêndio criminoso, e foi condenado a quinze anos e oito meses de prisão. O Tribunal de Apelações da Nona Corte Estadunidense, mais tarde, anulou sua condenação, alegando que não houve provas suficientes de uma trama de assassinato por aluguel. Mas um juiz o condenou a onze anos e meio pelas demais acusações. De acordo com a Agência Prisional, Peter Chong (65) foi libertado da prisão em 29 de julho de 2008.Em 1992, as acusações vieram,as o principal alvo das autoridades conseguiu fugir. Peter Chong já estava em Hong Kong. Sua Associação da Terra Inteira estava caindo aos pedaços, entretanto. Seu subchefe foi preso – com expectativa de um severo período de pena prisional. E aí Wayne Kwong decidiu cooperar com as autoridades, testemunhando contra seus antigos “irmãos”. Até que em 2000, Chong finalmente é extraditado para os EUA. E lá, ele lidou face a face com mais uma testemunha que virara a casaca: seu subchefe, Raymond Chow.

Princípios de liderança colaborativa que se podem extrair

É sempre assim.

O que os mafiosos plantam, pode demorar, mas colhem. Juntar-se a outros líderes em esquema de cooperação (teoricamente, pode-se falar em termos acadêmicos de Collaboration ou Collaborative Leadership, do termo administrativo, em Inglês) ou liderança colaborativa é algo que pode somar valor em qualquer empreendimento, visando maiores metas e sucesso. Os teóricos estabelecem diferenças entre cooperação e colaboração; porém, basicamente, em cooperação há apenas a administração de trabalhos conjuntos existentes e já bem estabelecidos, porém em colaboração, há uma união entre as lideranças, em busca de inovadores propósitos e metas em comum (foi o que ocorreu com Peter Chong e seus demais associados).

Conforme visto, ao longo dessa liderança colaborativa ocorreram problemas graves, devido à parte mais frágil, liderada por Danny Wong, ter gerado injúrias, em demonstrações de poder, causando 2 mortes (e, na verdade, oito ferimentos em membros do grupo Tríade Wo Hop To, também). Segundo o grande guru de liderança em geral, o americano John C. Maxwell, em seu livro “As 17 incontestáveis leis do trabalho em equipe” (2001), na QUINTA LEI do trabalho em equipe: uma corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco. Deve haver, em toda organização, medidas de segurança para que a ética profissional, e até mesmo o carisma em ambiente de trabalho sejam desenvolvidos. Medidas preventivas a “vira casacas” deveriam ser feitas.

(Na verdade, há muito o que se aprender com lições das famílias e clãs mafiosos, utilizando seus princípios para o bem. Saiba mais clicando aqui neste link).

E, para fechar este texto de modo conciso e com chave de ouro, optamos por  concluí-lo com uma breve citação de outro livro deste renomado conferencista e escritor – com algumas perguntas instigantes sobre o líder ampliar seu círculo íntimo dentro da organização como medida de segurança, também. (Leia pausadamente, se fazendo as mesmas questões).

“Que tipo de pessoas não lhe agradam e lhe geram desconfiança? Por que pensa assim? Seu campo de visão está embaçado pelas ações de um ou mais indivíduos? A forma de mudar essa perspectiva é nos aproximarmos das pessoas desse grupo e tentarmos encontrar um denominador comum com eles. Talvez esse venha a ser o círculo de conhecidos mais difícil de romper e adentrar nele, mas vale a pena fazê-lo. (Extraído da seção: Vá mais além de seus preconceitos pessoais, do capítulo Amplie seu círculo de conhecidos no livro O líder de 360º)”

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