A Mitologia da Máfia na Cultura Popular

De Al Capone e Vito Corleone à John Gotti e Tony Soprano, mafiosos da vida real e ficcional que capturaram a imaginação pública desde a década de 1920. Cruéis e violentos, esses homens, no entanto, são vistos frequentemente, na tentativa de manterem suas marcas pessoais de honra e decência. Os gangsters formavam apenas uma pequena porcentagem da imensa imigração de italianos, principalmente do sul da Itália para a América, no início do século XX.

Ainda assim, “A Máfia” se tornou a principal expressão da cultura pop de identificação ítalo-americana – para o desgosto de muitos ítalo-americanos. Isso se deve, em grande parte, à sólida influência de Francis Ford Coppola, 1972, ganhador do Oscar pelo grande sucesso do filme “O Poderoso Chefão” (baseado no romance de Mario Puzo), e sua reinvenção do gênero dos filmes sobre gângsters.


PRIMEIROS FILMES E PROGRAMAS DE TV SOBRE GANGSTERS

À medida que a era da Proibição deu lugar à Grande Depressão, a primeira leva de filmes de gangsters espelhou a crescente raiva e frustração de muitos americanos com o agravamento de suas condições econômicas. Em filmes como “Alma no Lodo” (1931) com Edga G. Robinson, “Inimigo Público” (1931) com Jimmy Cagney e “Scarface” (1932) com Paul Muni, onde os personagens principais – todos ítalo-americanos, alguns baseados em mafiosos da vida real, tal como Capone – sofreram consequências por terem infringido a lei; mas muitas audiências ainda identificaram sua disposição de ir além da fronteira do sistema tradicional, como medida para ganhar a vida.

Depois de 1942, a maior parte dos gangsters desapareceu das telonas, conforme os nazistas e os monstros tomaram o lugar dos mafiosos, uma vez que Hollywood preferia os vilões. Isso começou a mudar depois de 1950, quando o comitê do Senado, criado para para investigar o crime organizado, começou a realizar audiências públicas. Graças ao novo meio de telecomunicação, milhões de americanos assistiam ao testemunho de criminosos da vida real, como Frank Costello (ou mais precisamente: eles assistiam as mãos trêmulas de Costello – já que era a única parte dele mostrada pelas câmeras). No começo dos anos de ’60, Joseph Valachi, um soldado na organização da “família” Luciano, assumiu um papel de protagonista nas audiências, que, posteriormente, eram televisadas.

Fora Valachi quem introduzira o, agora, famoso eufemismo da máfia “La Cosa Nostra” (Nossa Parada), e seu testemunho revelou a evolução o crime organizado dos ítalo-americanos na América, especialmente em Nova York. “Os papéis de Valachi”, um livro, por Peter Maas, publicado em 1969; o mesmo ano do romance que faria mais do que qualquer outro, para estabelecer a mitologia da máfia na cultura popular: Mario Puzo, “O Poderoso Chefão”.

Em uma entrevista filmada para o documentário “Sob Influência” (2003), Francis Ford Coppola disse que ele assistiu ao “Grande Chefão” como um conto clássico de Shakespeare: a história de um rei e seus três filhos. De acordo com o produtor Robert Evans, Coppola também fez de sua história na máfia uma metáfora para o capitalismo.


“O PODEROSO CHEFÃO” E O SEU LEGADO

O romance de Puzo conta a história de um imigrante siciliano, Vito Corleone, sua família, e os “negócios” que ele construiu em Nova York, incluindo as dificuldades de seu filho Michael, que o vai suceder como o novo “Dom”. A Paramount Pictures adquiriu os direitos do romance e o diretor do estúdio, Robert Evans, voltou-se para o jovem diretor de origem ítalo-americana, Francis Ford Coppola, para que ele dirigisse o filme; (Coppola também co-escreveu o roteiro com Puzo). Com Marlon Brando (Don Corleone) e Al Pacino (Michael) conduzindo um elenco estelar, “O Grande Chefão” deu um vislumbre mais completo e autêntico, e até mais complacente dentro da experiência ítalo-americana jamais vista nas telonas antes, mesmo sendo emoldurado o vislumbre através das lentes do crime organizado. Também pintou um retrato inegavelmente romântico do mafioso, como um homem de contradições, que era impiedoso com seus inimigos, mas devoto à sua família e seus amigos, acima de tudo. Ao contrário dos filmes anteriores de gangsters, “O Poderoso Chefão” abordou a Máfia de dentro para fora, ao invés de pegar a perspectiva dos agentes da lei ou da sociedade convencional. Desse modo, “O Grande Chefão” reinventou os filmes de gângsteres, e dessa forma, influenciaria todos aqueles que viessem depois dele. “O Grande Chefão, Parte II” (1974) era mais obscuro e mais violento que o primeiro filme, mas ambos bateram o recorde e massacraram as bilheterias, tendo várias indicações e prêmios ao Oscar. “O Poderoso Chefão, Parte III”, lançado 16 anos depois da parte II, falhou e não alcançou os críticos, nem a audiência.

Veja também: 10 Inspirações na Vida Real para Personagens de O Poderoso Chefão

Ao longo das próximas três décadas, Hollywood nunca perdeu sua fascinação com a máfia. Uma lista parcial de filmes relacionados, incluindo os dramas, como “Os Intocáveis” (1987), “Donnie Brasco” (1997), e especialmente “Os Bons Companheiros” (1990) de Martin Scorsese, que mostrou “a outra parte” da visão romântica de “O Poderoso Chefão” sobre vida da máfia. Os mafiosos também trilharam seu caminho para as comédias: “A Honra do Poderoso Prizzi” (1985), “De Caso com a Máfia” (1988), “My Blue Heaven (Meu céu Azul, em português) (1990) e “Máfia no Divã” (1999). Dos filmes animados e desenhos infantis, dos videogames para o estilo “gangsta” do hip-hop, ou do rap, o mito da máfia estava em todo lugar, em grande parte, graças ao imenso legado de “O Grande Chefão”. Na TV, é claro, os mafiosos apareciam, com certa frequência, em séries sobre crimes, como por exemplo “NYPD Blue” (Nova York Contra o Crime) e Law and Order (Lei & Ordem). Em 1999, no entanto, estrearam as séries de TV a cabo, estrelando um mafioso como nunca se tinha visto antes.


“FAMÍLIA SOPRANO”

Baseada em Tony Soprano, David Chase, o criador da série “Família Soprano”, do canal HBO, e uma outra ítalo-americana, de Nova Jersey, conseguiu criar um novo tipo de gângster. Chase moveu a ação do ambiente urbano tradicional para os subúrbios de Nova Jersey, onde Tony (James Gandolfini) visita um psiquiatra para lidar com o estresse de seu trabalho e de sua família (incluindo sua esposa Carmela, mãe de Livia e de dois outros filhos adolescentes).

No mundo de a “Família Soprano”, gângsteres como Tony estavam simplesmente tentando alcançar o mesmo tipo de vida afluente, próspera, de seus parceiros suburbanos. Tudo isso enquanto batalhava com a sensação de que havia alguma coisa faltando, um vazio de que as coisas não estavam do jeito que costumavam ser. A “Família Soprano” foi exibida durante seis temporadas, de 1999 a 2004; ganhou mais de 20 Emmy Awards e foi aclamada pela crítica como sendo a melhor série de TV da história. Em reconhecimento pela dívida de Chase com outros trabalhos relacionados à cultura popular da máfia, a série continuamente fazia referência a essas obras, incluindo “Inimigos Públicos”, “Os Bons Companheiros”, e especialmente, “O Grande Chefão”.

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ESTEREOTIPO NEGATIVO

Assim como “O Poderoso Chefão”, um dos mais impressionantes aspectos da “Família Soprano”, foi sua fotografia ricamente detalhada da primeira e segunda geração ítalo-americana, como sendo vista através da experiência de uma das mais extensas famílias. O fato de ambas as famílias serem mafiosas, no entanto, significa que muitos ítalo-americanos tinham sentimentos contraditórios frente a esses trabalhos.  Em 1970, a Liga dos Direitos Civis Ítalo-americanos, realizou uma manifestação para interromper a produção de “O Poderoso Chefão”.  Para a “Família Soprano”, a Fundação Nacional dos ítalo-americanos protestou contra a série por ser uma ofensiva caricatura, enquanto os organizadores do desfile “Columbus Day de Nova York” se recusaram a permitir que os membros do elenco da “Família Soprano” marchassem no desfile durante vários anos consecutivos.

Apesar da fascinação da cultura pop com a máfia ter, inquestionavelmente, alimentado certos estereótipos negativos sobre os ítalo-americanos, as aclamadas obras como “O Poderoso Chefão”,  “Os Bons Companheiros” e a “Família Soprano” deram, também, para muitos ítalo-americanos, a noção de identidade e experiência  compartilhada. Apesar dessa natureza controversa, o mito da máfia – criado e nutrido pela obra “O Poderoso Chefão”, e seus muitos descendentes da cultura pop – continua a cativar as massas, sejam elas italianas ou não.

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